Atendendo aos pedidos da Roberta e da Suzi, leitoras do blog, estou postando hoje um texto sobre a gagueira e seus possíveis aspectos inconscientes.
O texto não trata de uma discussão aprofundada sobre o tema, tem apenas o intuito de compartilhar com vocês um breve olhar psicanalítico sobre esse fenômeno, deixando claro que as causas da gagueira podem ser decorrentes de inúmeros fatores de ordem inconsciente ou não, portanto, o seu tratamento exige um trabalho conjunto.
A gagueira, segundo o Instituto Brasileiro de Fluência, é um fenômeno que vem afligindo atualmente, pelo menos 1% da população mundial, o que significa mais ou menos 55 milhões de pessoas no mundo todo. Trata-se de um sintoma de uma desordem da fala. Consiste na interrupção da fluência verbal caracterizada por repetições ou prolongamentos não controláveis, audíveis ou não, de sons e sílabas. A alteração na fala pode estar acompanhada por outros movimentos e por emoções como medo, embaraço ou irritação.
Existe um período na infância (de 2 a 4 anos) em que o “gaguejamento” é normal. Trata-se do processo de aquisição da linguagem. Nesse período os pais não devem ter uma expectativa de grandes melhoras, pois isso prejudica de maneira importante toda a dinâmica familiar.
Passado esse período, se a criança continua apresentando a gagueira é necessária uma investigação feita por uma equipe interdisciplinar para serem avaliados os aspectos neurológicos, fonoaudiológicos e psicológicos da criança.
No caso de constatação de uma lesão neurológica e/ou um distúrbio da fala instalado, a criança deverá ser tratada pelos profissionais das áreas citadas e por um psicólogo que oferecerá apoio emocional a criança e orientação aos pais em como lidar com a situação.
Quando constatada a ausência de uma lesão neurológica e/ou quando a terapia fonoaudiológica não está sendo suficiente, faz-se necessário uma investigação dos fatores emocionais que podem estar desencadeando a gagueira. Nesse momento, o tratamento psicológico pode oferecer apoio emocional à criança e orientação aos pais, além de tentar compreender por que essa criança escolheu a fala como objeto de sua fobia e não qualquer outro.
No caso do adulto, a gagueira pode ser encarada como sintoma psicológico nas mesmas circunstâncias em que se dá o da criança, ou seja, após serem descartadas as causas biológicas.
A Psicanalista Roberta Ecleide de Oliveira Gomes-Kelly, interpreta a gagueira, não oriunda de uma disfunção neurológica, como um sintoma fóbico e como tal, o sujeito tende a substituir a angustia da castração pela angustia causada pelo objeto fóbico. No caso do gago é a fala esse objeto. Tal interpretação se dá principalmente porque o início da gagueira na criança coincide com o período do complexo de Édipo e da castração.
Ainda de acordo com a visão psicanalítica da autora supracitada, a formação do sintoma é acionada por aspectos inconscientes que devem ser compreendidos dento da história de cada um. Tal abordagem aplica-se especialmente aos casos onde a demanda do paciente vai além do tratamento fonoaudiológico, isto é, quando é necessário prestar mais atenção em “o que” o indivíduo fala do que em “como” ele está falando.
Para finalizar, quero deixar a minha opinião enquanto psicóloga clínica e as minhas breves conclusões sobre o tratamento da gagueira, tomando como base a abordagem psicanalítica.
Em primeiro lugar, acredito que nenhuma teoria pode dar conta sozinha de um fenômeno de aspectos tão variados como a gagueira, porém as teorias se complementam e a união entre elas, manifestada pelos pontos de vista de uma equipe interdisciplinar, é o ponto crucial de um tratamento bem sucedido. O tratamento deve ser personalizado, elaborado de acordo com as demandas específicas de cada paciente, e este deve ser visto como um todo, durante o processo.
Quanto à psicologia, concordo com a opinião da psicanalista Roberta Ecleide de Oliveira Gomes-Kelly, quando diz que esta deve ocupar-se em tratar os sentimentos causados pela gagueira ao sujeito e ouvir a demanda por trás da queixa, analisando os aspectos subjetivos que determinam o progresso do tratamento, tendo em vista que todo sintoma adulto carrega consigo aspectos inconscientes trazidos da infância que ainda não foram tratados e que toda a manifestação de um comportamento é um termômetro do mundo interno de cada sujeito.
Como sugestão para quem quer aprofundar o assunto eu deixo o livro: “ Fonoudiologia – Recreando os seus sentidos” da autora: Maria Consuelo Passos; e o filme: “ O discurso do Rei” (2010).
Texto adaptado do artigo – Fluir ou disfluir: Eis a questão! Uma discussão sobre a gagueira e a Psicanálise – Autora: Roberta Ecleide de Oliveira Gomes – Kelly; e do livro - Fonoudiologia – Recreando os seus sentidos - Autora: Maria Consuelo Passos.
Renata,
ResponderExcluirSempre acho que a melhor forma de compreender um distúrbio é perguntar para quem o possui. Por isso recomendo que você leia no link abaixo uma excelente análise do filme O Discurso do Rei escrita por um gago! Foi a melhor resenha que li até agora sobre o filme:
http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/03/analise-do-discurso-do-rei/
Saber ouvir é sempre a melhor atitude para quem admite que não sabe tudo e se dispõe a aprender. E uma coisa que ninguém soube fazer direito até hoje foi ouvir o que os gagos têm a dizer sobre seu distúrbio.
Já que são eles que vivenciam o problema na pele, são eles que também podem nos ensinar mais sobre o problema do que qualquer outro especialista.
Abraços,
Ana Maria
Olá Ana Maria,
ResponderExcluirAcessei o link e li a análise do filme. Realmente é um ótimo ponto de vista! É muito importante sim conhecermos o universo emocional que envolve quem sofre com a gagueira, principalmente quando o ponto de vista é manifestado por eles. Me interessou muito as informações do item 6, sobre os aspectos genéticos e biológicos da gagueira. Muito bom mesmo. Como já falei no texto, acredito que nenhuma área é capaz de dar conta sozinha de todos os aspectos bio-psíquicos que envolvem a gagueira, por isso é necessário sim, continuarmos estudando, divulgando informações e trocando opiniões! Obrigada por comentar, tenho certeza que o link que você divulgou será útil a muitas pessoas que assim como nós, estão dispostas a aprender um pouco mais sobre o assunto. Um grande abraço e seja bem vinda a esse espaço!